Varejo em compasso de cautela

21 de julho de 2025

O varejo brasileiro entra no segundo semestre de 2025 envolto por uma névoa de incertezas e sob o signo da prudência. Os dados recém-divulgados pelo IBGE, por meio da PMC (Pesquisa Mensal de Comércio), acendem um sinal amarelo que o setor não pode ignorar. A variação de -0,2% no volume de vendas entre abril e maio, embora discreta, sucede uma retração anterior de -0,4%, formando uma sequência preocupante. A média móvel trimestral, paralisada em 0,1%, aponta para um cenário de estagnação, ainda que a comparação interanual revele alta de 2,1%.

Segundo o próprio IBGE, o que se vê é uma estabilidade aparente, influenciada pelo chamado “efeito base”, já que março registrou um pico inédito na série histórica iniciada em 2000. Ainda assim, a leitura mais cuidadosa desses dados exige que se vá além da superfície estatística. A economia real, vivida nas ruas, nos balcões e nas prateleiras, nos revela um consumidor mais retraído, sufocado por juros ainda elevadíssimos e crédito escasso.

Com a Selic estacionada em 15%, o crédito, oxigênio do consumo, segue rarefeito. A concessão de financiamentos, especialmente para a pessoa física, encontra-se represada, e o apetite do consumidor por bens duráveis e de maior valor agregado, como móveis e eletrodomésticos, foi nitidamente arrefecido. Dados do ICVA (Índice Cielo do Varejo Ampliado) mostram que o faturamento real do varejo encolheu 2,5% em junho, uma reversão preocupante após dois meses de recuperação. Segmentos emblemáticos como bares, restaurantes, supermercados, lojas de móveis e materiais de construção foram diretamente afetados.

A explicação está no comportamento de um consumidor que, diante da inflação persistente e da rigidez dos juros, volta-se ao essencial e posterga decisões de compra mais significativas. Setores não essenciais são geralmente negligenciados em um ambiente de taxas de juros altas e inflação contínua.

O varejo, portanto, deve mirar o segundo semestre com os pés no chão e a mente voltada à racionalização. A sazonalidade natural dos últimos seis meses do ano, impulsionada por datas como Dia dos Pais, Black Friday e Natal, poderá oferecer respiros, mas não resolverá, por si só, os entraves estruturais que hoje limitam o consumo. Será preciso planejamento apurado, gestão eficiente de estoques e sensibilidade para interpretar o novo perfil de consumo: mais criterioso, mais seletivo e, acima de tudo, mais consciente.

Apesar do pano de fundo desafiador, não se pode perder de vista a resiliência do setor. O varejo já provou, em inúmeros ciclos, sua capacidade de adaptação e reinvenção. Ainda que os próximos meses inspirem cautela, também são férteis em oportunidades para quem souber ouvir o mercado, ajustar suas estratégias e se aproximar, com autenticidade e inteligência, das necessidades do consumidor.

O segundo semestre exigirá mais do que otimismo: pedirá visão, disciplina e coragem. Será necessário acompanhar de perto os desdobramentos da política monetária, manter a equipe preparada para reagir com flexibilidade às variações do consumo e cultivar a fidelidade dos clientes por meio de experiências de compra mais personalizadas.

Geovar Pereira,
presidente da CDL Goiânia e vice-presidente da CNDL

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